”Chegar a casa”

É sobre a palavra “Casa” que me debruço.

O projeto tenciona procurar a definição de casa, lar, no decorrer do seu desenvolvimento. Ainda que o seu conceito seja, geralmente, associado a uma construção de tijolo e cimento destinada à habitação de uma família, compreendo que, para mim, é um conceito mais alargado que se estende a Arnelas, o lugar onde moro que é composto pela família, pelos amigos, pelos vizinhos, pelo rio Douro, pela areia, pela fauna e flaura e por uma história repleta de tradições que se relembram até hoje.

Eu, como todos os que vivem em Arnelas, respiram o rio Douro, e tudo o que dele adveio e advém.

No entanto, compreende-se que um conceito alargado, implica uma dificuldade maior em defini-lo, consequentemente, a intenção com este projeto é procurar o que é a minha casa, o seu conceito e definição e as suas posíveis variantes.

Através de matérias como o vidro e a resina procuro iniciar o meu projeto por aquilo que considero como a ‘’porta da minha casa’’: o rio Douro. Tal como a água, o vidro e a resina époxi são matérias que considero com particularidades muito próximas das da água que molda as margens que acompanham o rio. É com e a partir dessas matérias que tentarei definir as paredes e o teto da minha casa ainda que possa chegar que a minha casa extravase a construção de tijolos e cimento, não tenha paredes ou teto e talvez seja a água, o rio e, como ela, também eu serei incolor.

O meu projeto procura explorar o conceito de casa/lar, partindo, não da conceção pré-defenida destes conceitos mas antes, daquilo que será o meu entendimento da sua definição. De forma sintética, ao longo do projeto, os conceitos de casa/lar, serão bem mais expansivos do que a tradicional presunção, que acaba por os limitar à construção de tijolo e cimento. Estes conceitos irão extravasar as paredes e o teto e podem até mesmo não serem associados a um espaço, nem necessitarem de uma delimitação. Ao invés, as definições de casa/lar serão alargadas a conceitos como família, amigos e vizinhos, e claro, ao ambiente que as envolve, seja ele citadino, urbano ou rural. Casa/lar na sua amplitude, deve ser associado a um local onde sentimos, conforto, calor e onde sentimos liberdade.

Assim, o projeto pretende responder, artisticamente, e mais concretamente, a partir da escultura e da tridimensionalidade que lhe é característica, às perguntas: ‘‘O que é a minha casa?’, ‘‘O que é o meu lar?’’ de forma a que palavras como casa e lar possam ser apreendidas de uma forma radicalmente diferente daquilo a que normalmente estão associadas.

Arnelas é uma das povoações mais antigas de portugal, evolui e cresceu graças ao rio Douro, á pesca e ao imposto que cobravam aos barcos que por ali passavam. A minha casa (Arnelas) é rio, os vizinhos são família e as ruas são os corredores da casa enorme onde todos habitam. A casa é repleta de lavradios, flores, animais, ruas íngremes, tortas, e tem um rio como seu rodopé, que nos relembra as tradições e a origem do lugar.

Sendo a origem do lugar de Arnelas o rio Douro, o projeto debater-se-á muitas vezes, sobre o que é o rio, a sua importância e a capacidade de se tornar casa. Por isso mesmo, características como as da água – transparente, incolor, geralmente ínsipida e inodora – serão procuradas em matérias que possam apresentar um aspeto semelhante como é o caso do vidro e da resina. No entanto, como Arnelas não é só o Rio, outras matérias serão exploradas de forma a encontrar o significado de casa em outras particularidades do lugar de Arnelas.

Essencialmente, o projeto torna-se pertinente porque procura, a partir do meu conceito de casa/lar, questionar os outros acerca do seu próprio conceito. Será a casa, a habitação? A família? Um membro familiar? Um amigo? Um animal? Um lugar? Uma paisagem? Um acontecimento? Uma cor? Poderá a casa ser o pequeno-almoço? O café que se toma todas as manhãs? O jantar em família?

Em suma, o projeto ‘‘Casa’’, tenciona procurar a resposta para a pergunta ‘‘O que é a minha casa?’’ abrindo a oportunidade para os outros de se encontrarem a si e à sua casa nos trabalhos que se irão desenvolver em resposta a este tema.

arte

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Chegar a casa

2022

Resina époxi, areia de arnelas e água do Rio Douro.